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90 ANOS DA SEMANA DE ARTE MODERNA DE SÃO PAULO.

Nesta semana que passou a tão falada Semana de Arte Moderna de São Paulo completou noventa anos.  Realizada no Teatro Municipal de São Paulo, suas exposições e recitais são consideradas o marco inicial do Modernismo brasileiro. Ícones da primeira geração modernista brasileira participaram da Semana, como Mário de Andrade, Anita Malfati, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Oswald de Andrade, Brecheret, Di Cavalcanti, Vila Lobos entre outros.

O Homem Amarelo, obra de Anita Malfati

Constata-se que anos antes, por volta de 1912, Oswald de Andrade já divulgava as ideias modernistas em jornais e revistas brasileiras e, em 1917 Anita Malfati, que voltava de uma temporada de estudos artísticos na Europa e dos EUA, realizou uma exposição de quadros que chocou a sociedade paulistana da época, sendo alvo de ataques dos críticos de arte do período, em especial de Monteiro Lobato, crítico do jornal O Estado de SP, principal publicação de então.

Os anos que se seguiram até 1922, serviu para o grupo modernista ganhar adeptos, conquistar apoio entre os membros da oligarquia cafeeira paulista que atuava como mecenas das artes. A elite econômica paulista usava o patrocínio aos artistas de vanguarda para acentuar um suposto grau de elitismo cultural.

Em fevereiro de 1922 o grupo modernista paulista consegue articular-se e realiza a Semana de Arte Moderna de SP, porém, ao contrário do que podemos pensar hoje, 90 anos depois, a classe artística vanguardista não tinha um modelo pronto para apresentar ao Brasil. Isso fica claro em uma fala do próprio Oswald de Andrade, “Não sabemos o que queremos. Mas sabemos o que não queremos.” O grande mérito da Semana foi rejeitar a forma anterior de arte, centrada em um academicismo estético, muito bem representado pela poesia parnasiana, que tinha por objetivo a exaltação da beleza, mesmo que isso provocasse uma arte sem conteúdo ideológico.

Participantes da Semana de Arte Moderna de São Paulo nas escadarias do Teatro Municipal

A Semana de Arte Moderna de SP rompe com esse academicismo, apresentando um esboço do que seria a arte moderna brasileira, e por este motivo, apesar de celebrada por alguns presentes ela é contestada por grande parte da sociedade paulista. Ainda na década de 1920, a Arte Moderna brasileira toma forma e conquista a sociedade paulista e brasileira.

Os anos 1920 foram um período de transformações no Brasil, em especial em São Paulo. O café, principal produto da pauta de exportações brasileiras desde a segunda metade do século XIX, tornou São Paulo no estado mais rico da nação, e alçou sua capital a condição de maior centro urbano-industrial brasileiro. Também na política, o início dos anos 1920 trouxeram a Reação Republicana, movimento encabeçado por Nilo Peçanha, que desafiou a Política do Café-com-Leite, que ditava os rumos da política brasileira, no revezamento de paulistas e mineiros na Presidência da República. Peçanha, concorreu e perdeu ao pleito nacional para o mineiro Arthur Bernardes. Apesar da derrota, alguns historiadores enxergam ali o germe do Partido Democrático, que em São Paulo seria fundado anos mais tarde em 1926. Ainda em 1922, como consequência da eleição de Bernardes à Presidência, ocorreu a Revolta dos 18 do Forte, na praia de Copacabana, quando os militares de baixa patente ali aquartelados rebelaram-se contra o governo central, contestando as oligarquias. Essa revolta deu origem ao movimento tenentista, um dos pilares da Revolução de 30 que encerrou a República Velha. Ainda em 1922 foi fundado no Brasil o Partido Comunista de inspiração marxista. A Semana de Arte Moderna de São Paulo insere-se neste contexto.


PAGÚ – UMA JOVEM MULHER À FRENTE DE SEU TEMPO!

 

Por ocasião do Dia Internacional da Mulher publico uma nota biográfica de Pagú.

“Pagú tem uns olhos moles

uns olhos de fazer doer.

Bate-coco quando passa.

Coração pega a bater.

 

Eh Pagú eh!

Dói por que é bom de doer (…)”

Trecho do poema “Coco de Pagu, de Raul Bopp.

 

QUEM É PAGÚ?

Patrícia Rehder Galvão, ou simplesmente Pagú, nasceu no interior de São Paulo, na cidade de São João da Boa Vista, em 9 de junho de 1910. Logo, aos seus três anos, sua família muda-se para a cidade de São Paulo, em plena expansão. A mutação da cidade reflete-se na jovem Patrícia, que torna-se uma adolescente revolucionária.

Frequentava a Escola Normal e uniformizada como normalista corria por todo o Centro Velho da capital. Para complementar o “look” de normalista uma carregada maquiagem, grandes brincos de arcola e o cigarro em público, que compunham uma jovem à frente de seu tempo, que jogava a sociedade provinciana de São Paulo.

Aos 12 anos presenciou a Semana de Arte Moderna de 1922  e aos 15 iniciou sua carreira jornalística no “Brás Jornal” com o pseudônimo Patsy.

Em 1928 Pagú entra em contato com o Movimento Antropofágico, capitaneado por Oswald de Andrade, então casado com a pintora Tarsila do Amaral. O casal apadrinha Pagú, que entra para o circuito mais radical do Movimento Modernista.

Pagú e Oswald envolvem-se em um romance secreto, esse caso extra-conjugal leva ao fim do casamento entre Oswald e Tarsila, e em 1930 Pagú casa-se com o poeta antropofágico. O novo casal não é aceito pela sociedade conservadora paulistana, mesmo os adeptos do Modernismo. No entanto, após Pagú conhecer Luís Carlos Prestes eles passam a militar no Partido Comunista Brasileiro.

Pagú insere-se intensamente na militância política, é presa em uma manifestação grevista dos estivadores em Santos e quando é solta passa a morar no Rio de Janeiro, em uma Vila Operária e a trabalhar como lanterninha em um cinema na Cinelândia.

Em 1933 Pagú lança seu primeiro romance “Parque Industrial”, um romance proletário, com edição financiada por Oswald de Andrade e assinado com o pseudônimo Maria Lobo. O romance é uma narrativa urbana, cujo o tema central é a vida das trabalhadoras das indústrias paulistanas. “Parque Industrial” insere-se nas experiências modernistas, com forte ligação com o romance antropofágico “Memórias Sentimentais de João Miramar” de Oswald de Andrade.

Ainda em 1933 Pagú parte em viagem por vários países, EUA, Japão e China, onde ela entrevista o psicanalista Freud e em 1934 ela chega a antiga União Soviética, em uma longa viagem pela Transiberiana. A temporada de Pagú em Moscou deixou profundas marcas nela. O socialismo real soviético, onde a população vivia de forma miserável enquanto a elite política do Partido Comunista Soviética vivia confortavelmente..

Após Moscou, Pagú foi a França onde envolveu-se em manifestações dos partidos de esquerda, presa é deportada para o Brasil em 1035.

Chegando à seu país logo é presa acusada de envolvimento na Intentona Comunista, foge da prisão, mas logo é presa novamente. Fica presa, então, por quase cinco anos e é solta em 1940.

A década de 40, do século passado, marca   uma Pagú que afasta-se da militância política e do Partido Comunista. Ela trabalha intensamente em inúmerosjornais e revistas como cronista e contista. Em 1945 publica seu segundo livro, “A Famosa Revista”, em parceria com seu novo companheiro conjugal Geraldo Ferraz. Nessa obra ela faz uma severa crítica ao Partido Comunista. Em 1950 ela candidata-se à Assembléia Legislativa Paulista, não é eleita, mas publica o panfleto “Verdade e Liberdade” com comentários de seu tempo na prisão, de sua viagem à Moscou, sua desilução com o Partido Comunista e o porque de sua candidatura.

Em 1952 Pagú passa a frequentar a Escola de Arte Dramática de São Paulo (EAD). Alinha-se ao Teatro Experimental de Vanguarda. Ao mesmo tempo contribuiu com inúmeros periódicos de Santos, e por lá participa intensamente da vida cultural em grupos de Teatro Amador.

No final da década já está muito doente, e em 1962 é operada em Paris. A operação não é bem sucedida e Pagú volta ao Brasil, onde morre em 12 de dezembro na cidade de Santos.

 

“Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um pára-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipóias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel’s check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.”

Nothing, último poema de Pagú.